
No fim do Festival RTP da Canção de 1974, José Carlos Ary dos Santos - que nesse ano não concorreu com qualquer canção - classificou o Festival de medíocre "onde só o Paulo se salvou". Algumas semanas depois deu-se o 25 de Abril e a canção vencedora "E depois do adeus" foi a senha que na rádio deu início à revolução. A senha estava para ser "Venham mais cinco" de José Afonso, mas o facto de José Afonso ser praticamente desconhecido da maioria dos militares e de ser proibido de passar nas rádios, o que daria muito nas vistas, optou-se pela canção bem conhecida e que não levantaria suspeitas, interpretada pelo Paulo de Carvalho. E por razões estratégicas, os Emissores Associados de Lisboa (a última estação na sintonia da Onda Média) foram escolhidos em detrimento do Rádio Clube Português. Faltavam 5 para as 11 da noite do dia 24 quando se deu "início" ao 25 de Abril...
"Quis saber quem sou, o que faço aqui..." (que alguém na brincadeira uns anos mais tarde diria ser o hino da doença de Alzheimer) não é uma canção de intervenção e a letra de José Niza (com música de José Calvário) nem ficaria na história se não fosse a canção ter sido escolhida para senha de uma revolução. Aliás, o Festival desse ano foi um dos mais fracos de sempre (até essa altura), sobretudo pela ausência de Ary dos Santos, que, em anos anteriores tinha feito coisas como "Canção de Madrugar", "Desfolhada", "Cavalo à Solta" ou "Tourada" (vencedora no ano anterior), que ainda hoje são o melhor que se fez na música portuguesa.
Em 1974 a votação nas canções do Festival era feita por distritos (com direito a 20 votos) e por 9 individualidades (com direito a 10 votos cada), entre as quais Henrique Mendes, Luís Andrade, Melo Pereira, que ao atribuírem o máximo de votos à canção de Paulo de Carvalho, reforçaram a vitória de "E depois do adeus" (245 pontos), face ao grande favorito, "No dia em que o Rei fez anos", dos Green Windows de José Cid (144 pontos), seguido também a grande distância de outra canção dos Green Windows, "Imagens" (40 pontos), esta sim, com uma letra muito mais "forte" social e politicamente. Em 4º lugar o Duo Ouro Negro (28 pontos), no 5º lugar José Cid a solo com "A rosa que te dei", e as restantes canções quase sem expressão na votação, tendo mesmo um peso pesado, Artur Garcia, ficado com zero pontos. De destacar que uma das canções mais bonitas (para mim) da música portuguesa, "Canção Solidão", interpretada por Helena Isabel (sim, ela já andava nestas coisas em 1974) teve apenas 2 votos. De todas as canções deste Festival, e para além da vencedora por razões óbvias, só "A rosa que te dei" sobreviveu como ícone da música portuguesa. Tudo o resto caiu no esquecimento, como é "próprio" das editoras, das rádios e das televisões que temos. E agora qual será o hino do próximo 25 de Abril?
A canção dos recibos verdes dos Deolinda ou
"Fazer o que ainda não foi feito" do Pedro Abrunhosa???
Bom 25 de Abril para todos. Aproveitem-no porque
para o ano poderemos não ter forças para o comemorar...