segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

A HISTÓRIA DO MELÃO, DO PAQUETE E DA SUSANA QUE PINTA


Susana Pinta pintava. Quer dizer, pinta. É pintora de quadros. Em especial de naturezas mortas, com grande apetência para frutas e legumes. Já fez, aliás, várias exposições, e até ganhou um prémio com a pintura de um quadro pincelado com nabos e a respectiva rama. O concurso realizou-se na sua terra, mas por azar a Junta de Freguesia da aldeia foi assaltada no dia anterior à entrega dos prémios, e Susana Pinta acabou por ficar sem o galardão, substituído à última da hora por um cabaz de frutas e legumes, cedido por agricultores locais, para compensar a vencedora.
Susana Pinta iria participar noutro concurso. Desta vez com a pintura de um melão. Procurou durante vários dias o melão com melhor aspecto em todo o lado. Encontrou-o e reproduziu-o esmeradamente numa pintura muito autêntica. De tal maneira que, quem olhasse para o quadro, parecia só faltar o cheiro e o toque do melão. O concurso iria realizar-se numa galeria no Bairro Alto, em Lisboa. Mas Susana conhecia mal as ruas da capital. Por isso, enganou-se no caminho e e em vez de chegar ao Bairro Alto pelo lado do Chiado viu-se ao fundo da mais que íngreme Calçada do Combro, no lado oposto.
Mas não era uma subida íngreme em escorregadia calçada portuguesa que a faria afastar-se da candidatura a um novo prémio de pintura. Embora, desta vez, não estivesse muito confiante... Susana até confidenciou ao namorado, que a fora ajudar a carregar o quadro emoldurado, que estava com um pressentimento que "iria apanhar um grande melão" no concurso. Ao que o namorado respondia para ela ficar tranquila, que o seu 'Sexto Sentido' nem sempre funcionava, e que com o seu currículo era impossível "apanhar um melão".

Manuel Paquete era estafeta. Tarefeiro. Paquete, pronto! Trabalhava numa empresa no Largo do Chiado mas andava quase sempre na rua. Nesse dia já passara várias vezes em frente a uma mercearia que ficava mesmo no cimo da Calçada do Combro. Nos caixotes de fruta, havia um melão que reluzia à luz de Lisboa. Embora tivesse um ordenado muito baixo, o 'Sexto Sentido' de Manuel Paquete dizia-lhe que aquele melão ainda seria dele. Tanto pensou que decidiu agir. E quando saiu do trabalho ao final da tarde, foi até à mercearia, e suspirou de alívio: "Felizmente, não o venderam!", articulou para os seus fechos-éclairs, só pensando no momento em que iria chegar a casa, pegar na grande faca que a avó lhe deixara em herança, e dar um golpe de alto a baixo ao longo daquela casca branco pérola... Apalpado o melão, e confirmada a sua aprovação, Manuel Paquete envolveu o fruto enorme com todo o carinho e com algum esforço levou-o junto da caixa. "Quer saco? São 10 cêntimos!". Ele mal pensou e respondeu de imediato que não. Levaria o melão na mão, por vários motivos: poupava o dinheiro do saco, e mostraria aos colegas e superiores que passavam por ali àquela hora que não era assim tão zé-ninguém, e que também sabia escolher e comprar um bom melão.
Saiu da mercearia com o grande melão nas mãos. Estava uma tarde de calor. As pedras da Calçada do Combro reluziam ainda mais que a casca do melão. A Calçada à Portuguesa era linda, pensou Manuel Paquete, mas mais lindo era o melão que ele acabara de comprar. E melhor ainda seria o momento em que iria degustá-lo. O seu 'Sexto Sentido' tinha funcionado, e ele levava ali algo que tanto desejara ter.
Por ser Verão e o Sol começar a descer lentamente no horizonte, as pedras da Calçada do Combro estavam plenamente iluminadas. De tal maneira que olhar para o chão era quase o mesmo que olhar para o Sol: ficava-se encandeado. E caminhar encandeado numa calçada íngreme como aquela não era o mais seguro. Mas o tarefeiro fazia da Calçada do Combro o seu caminho de todos os dias e até falava com as pedras, quase conhecendo-as uma a uma, sabendo onde estava uma mais saliente ou outra mais inclinada. Mas quando se carrega um objecto redondo sem pegas e com um peso apreciável, até os locais conhecidos podem pregar partidas: e foi então que Manuel Paquete tropeçou numa pedra onde um pedaço de calcário se lembrara de se lascar sem avisar, e a sola gasta do sapato comprado na loja dos chineses não foi capaz de manter o contacto permanente com o chão, deslizando alguns centímetros em parceria com outras pedras de calcário. 
Na mão direita, amparado pela mão esquerda, o melão premiado por ele próprio oscilou, rodopiou, voltou a roçar os dedos e as linhas da palma da mão, levitou como coxas de galinha numa concentração vudu, e finalmente abraçou a teoria de Newton, entrando em contacto com as pedras quentes e reluzentes, alinhadas lado a lado. Mais rápido do que meio pestanejar, Manuel Paquete pensou que já não valeria a pena usar a faca que a avó lhe deixou como herança porque o melão iria abrir pelo lado mais fraco, poupando-lhe trabalho… Mas, qual quê? Roliço, o melão, qual bola de râguebi, bateu e – sabem como fazem aquelas pedrinhas que se mandam na praia e que vão saltitando na água? - pois, o melão começou a saltitar e, qual carrinho de rolamentos descendo uma avenida, foi tomando balanço, fintando carros e gentes, de uma maneira de fazer inveja a Cristiano Ronaldo.

A começar a decalcar a Calçada do Combro vinha Susana Pinta, a iniciar a subida com o quadro emoldurado da natureza morta com que ela esperava ganhar um prémio. Resmungando com o 'Sexto Sentido' de que algo iria correr mal, Susana levantou os olhos para a Calçada que não conhecia o termo horizontal, quando viu a algumas dezenas de metros um objecto que já fora perfeitamente arredondado, mas agora qual pneu branco desgovernado e deixando vestígios pelo percurso... Sabem aqueles momentos em que vamos numa rua na direcção de outra pessoa e que tanto nós como a outra pessoa querem dar passagem mas acabam por se enfeixar uma na outra, não sem antes fazerem intenção de virar para um dos lados, depois para o outro? Pois, Susana Pinta e o melão desgovernado fizeram esse jogo por brevíssimos pestanejares, mas nenhum deles se conseguiu desviar a tempo: o melão – ou o que restava das talhadas que não chegaram a ver a faca que a avó de Manuel Paquete lhe tinha deixado como herança – escarrapachou-se na cara de Susana, não sem antes ter atingido e atravessado o seu "primo" pintado. Susana caiu para trás e a moldura enfiou-se na sua cabeça, como se costuma ver nos desenhos animados. O namorado de Susana ficou em pânico, mas a pintora não se magoara. E quando lhe perguntaram como se sentia, ela simplesmente respondeu que o melão, que se escarrapachara na sua cara, tinha um sabor misto a óleo e doce... e que viesse o presunto!




   

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