domingo, 24 de abril de 2011

A MÚSICA PORTUGUESA E O 25 DE ABRIL


No fim do Festival RTP da Canção de 1974, José Carlos Ary dos Santos - que nesse ano não concorreu com qualquer canção - classificou o Festival de medíocre "onde só o Paulo se salvou". Algumas semanas depois deu-se o 25 de Abril e a canção vencedora "E depois do adeus" foi a senha que na rádio deu início à revolução.
A senha estava para ser "Venham mais cinco" de José Afonso, mas o facto de José Afonso ser praticamente desconhecido da maioria dos militares e de ser proibido de passar nas rádios, o que daria muito nas vistas, optou-se pela canção bem conhecida e que não levantaria suspeitas, interpretada pelo Paulo de Carvalho. E por razões estratégicas, os Emissores Associados de Lisboa (a última estação na sintonia da Onda Média) foram escolhidos em detrimento do Rádio Clube Português. Faltavam 5 para as 11 da noite do dia 24 quando se deu "início" ao 25 de Abril...
"Quis saber quem sou, o que faço aqui..." (que alguém na brincadeira uns anos mais tarde diria ser o hino da doença de Alzheimer) não é uma canção de intervenção e a letra de José Niza (com música de José Calvário) nem ficaria na história se não fosse a canção ter sido escolhida para senha de uma revolução. Aliás, o Festival desse ano foi um dos mais fracos de sempre (até essa altura), sobretudo pela ausência de Ary dos Santos, que, em anos anteriores tinha feito coisas como "Canção de Madrugar", "Desfolhada", "Cavalo à Solta" ou "Tourada" (vencedora no ano anterior), que ainda hoje são o melhor que se fez na música portuguesa.
Em 1974 a votação nas canções do Festival era feita por distritos (com direito a 20 votos) e por 9 individualidades (com direito a 10 votos cada), entre as quais Henrique Mendes, Luís Andrade, Melo Pereira, que ao atribuírem o máximo de votos à canção de Paulo de Carvalho, reforçaram a vitória de "E depois do adeus" (245 pontos), face ao grande favorito, "No dia em que o Rei fez anos", dos Green Windows de José Cid (144 pontos), seguido também a grande distância de outra canção dos Green Windows, "Imagens" (40 pontos), esta sim, com uma letra muito mais "forte" social e politicamente. Em 4º lugar o Duo Ouro Negro (28 pontos), no 5º lugar José Cid a solo com "A rosa que te dei", e as restantes canções quase sem expressão na votação, tendo mesmo um peso pesado, Artur Garcia, ficado com zero pontos. De destacar que uma das canções mais bonitas (para mim) da música portuguesa, "Canção Solidão", interpretada por Helena Isabel (sim, ela já andava nestas coisas em 1974) teve apenas 2 votos. De todas as canções deste Festival, e para além da vencedora por razões óbvias, só "A rosa que te dei" sobreviveu como ícone da música portuguesa. Tudo o resto caiu no esquecimento, como é "próprio" das editoras, das rádios e das televisões que temos.
E agora qual será o hino do próximo 25 de Abril?
A canção dos recibos verdes dos Deolinda ou
"Fazer o que ainda não foi feito" do Pedro Abrunhosa???
Bom 25 de Abril para todos. Aproveitem-no porque
para o ano poderemos não ter forças para o comemorar...

19 comentários:

Paulo Sempre disse...

"O desejo humano é animal, como desvencilhar-se dele?" (Freud)

Abraço!!

Filoxera disse...

Era o que faltava! As forças não faltarão...
Beijos.

Fernando Vasconcelos disse...

É uma boa questão. Outra canção improvável possivelmente ... Há uma outra canção dos Deolinda bem melhor do que a que se tornou popular ... De resto contrariamente ao que se diz o 25 de Abril está tão vivo quanto ausente está das nossas memórias. O facto de em menos de 40 anos termos esquecido apenas prova que politicamente foi um sucesso. Economicamente também porque é bom que não queiram comparar o Portugal de hoje daquele que existia à 40 anos. Socialmente e culturalmente nem se fala. evitemos que a canção de que falam seja o fado da tragédia ...

tulipa disse...

OLÁ AMIGO

Espero que a PÁSCOA tenha sido boa, feliz, em paz e muito amor.

Sobre o meu blog, queria saber se viste o post que fiz sobre o Domingo de Ramos no Seixal, com fotos do relógio de sol da igreja, etc...e tal...?

Não comentaste...!!!
Beijos.
Fica bem.

GarçaReal disse...

Passei para desejar um bom final de Páscoa e agradecer o apoio deixado em meu blog.

Bjgrande do Lago e cuidado com as amêndoas.

Joana disse...

Acho que a canção dos delinda está em muito boa posição para reclamar para si o primeiro lugar.

Beijinhos

JPG disse...

E o povo pá?

Abraço!

lino disse...

Vamos ter. Mas se for necessário, que tal a Pedra Filosofal?
Abraço

© Piedade Araújo Sol disse...

podemos nao ter forças mas que nos deixem a esperança

beij

Ana disse...

Gosto mais da do Pedro Abrunhosa!
viva o 25 de Abril sempre
beijinhos

Justine disse...

A boa música que temos nunca será esgotada, S.A.! Ainda ontem à noite na RTP2 me emocionei a ouvir o Zeca, aquela voz magnífica e inesquecível...
Para o ano cá estaremos, sim, talvez ainda com mais força!

Rafeiro Perfumado disse...

Eu apostava no "Quando a cabeça não tem juízo", do António Variações.

Abraço!

Paulo disse...

Sugiro Xutos & Pontapés "Sem eira nem beira" que assenta bem num país de doutores e engenheiros, que muitos por serem excelentes aldrabões, enveredaram por outra carreira de mais sucesso... políticos "rasca"! (LOL)

Alexandre, este texto está muito bom e com grande detalhe, parabéns e grande Abraço ^_^

Mar Arável disse...

Um dia outras crianças

com cravos vermelhos

continuarão a ser Abril

com sonhos e amanhãs

mesmo que lhe falte a força

CF disse...

Amigo
gosto muito de recordar estas e outras músicas que fazem parte da nossa história... de verdade!
Mas sabe? neste momento gostaria de ver mudança e não reviver o passado... se isso significasse reconstruir o futuro... outro galo cantaria!lol
Portugal mudou o rumo da História em 74 e a partir daí, adquiriu a passividade própria dos "mortos"...
Desculpe, mas é o meu sentir.
Abç

Diário de um Anjo disse...

Por acaso ia uma amendoa e agora?

Vieira Calado disse...

Eu, este ano já não tive.
Nem saí de casa!

Um abraço

Patrícia disse...

Poderemos não ter forças. E nem sequer dinheiro. Eu tenho uma opinião muito própria quanto ao 25 de Abril. Para mim, o Dia da Liberdade tem de ser dado ao povo. É para ele e não para comemorações bizarras onde se discute tudo menos o sacrifício de verdadeiros patriotas para mudar o regime. Já não existem Salgueiros Maia ou Otelos Saraiva de Carvalho (apesar de compreender o ponto de vista do senhor quando disse que o 25 de abril não foi feito para a situação que vivemos actualmente).

Beijinhos=)
Patrícia

BRANCAMAR disse...

Como diz a Filoxera:

Era o que faltava!
Dezanove aninhos participativos no Abril de 1974, mas ainda cá estou para outras curvas e para estas lutas, nem que tenha 80 ainda me hei-de arrastar... :))

Abraço