quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

DUAS HISTÓRIAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA!

HISTÓRIA 1

Eram 10 da manhã de um qualquer Sábado. A miúda da pastelaria teve dificuldade em encontrar algo parecido ao que o indivíduo lhe pediu. Um bagaço duplo num daqueles copos-balão enormes! A cara dele não tinha uma cor muito diferente da farda vermelha da miúda da pastelaria. Enquanto isso, outras pessoas pediam cafés, meias-de-leite, torradas e bolos... Cá fora, à entrada, ficou a mulher: franzina, com roupa escura do século passado, rosto branco, rugas antes de tempo, olhos sem olhar, boca sem sorrir... teria uns 45 anos, talvez 50... muito provavelmente 200!

Ele resmungava qualquer coisa imperceptível enquanto os 45 graus da bebida branca do copo-balão deslizava pelo seu esófago abaixo. Fez algumas interrupções para vir à entrada da pastelaria descarregar o hálito nos quase farrapos que ali estavam... não, não estavam... há muito que aquele corpo franzino já não tinha vida. Por isso o tempo para ela já não importava...

Ele nem conseguiu erguer a cabeça para beber até ao fim, pousou o copo-balão com algum barulho, cambaleou em direcção à saída, resmungou de novo, ela baixou ainda mais os olhos que não olhavam, cerrou ainda mais os lábios que se tinham esquecido como era sorrir... e os dois desapareceram no meio da multidão anónima...

(Nota: esta história não é ficção!)

HISTÓRIA 2

Ela começou por ser molestada ainda no namoro, mas como era muito nova pensava que tinha que ser assim e que tudo melhoraria com o tempo! Enganou-se! O casamento começou por ser um inferno e ao longo dos anos foi-se tornando em algo ainda pior. Os palavrões, as ameaças, os empurrões transformaram-se em estaladões, em agressões, em tareias...de tal maneira que muitas vezes ela foi parar ao hospital. Nunca apresentou queixa, apesar de os vizinhos e os familiares a pressionarem para isso!

E assim se passaram anos, muitos dos quais com ela cheia de mazelas, nódoas negras pelo corpo e olhos negros. Faltava ele partir-lhe um braço - e aconteceu! E depois só faltava mesmo ele matá-la à pancada... era o desfecho mais previsível de uma vida de terror... e um dia haveria com certeza um funeral...

... O funeral não foi muito concorrido. Ele não gozava de nenhuma estima entre a vizinhança e amigos tinha poucos. Nesse dia ela maquilhou os olhos negros pela última vez...

(Nota: já tinha publicado esta história no meu antigo blog Uma História por Dia)

9 comentários:

**laura** disse...

O mais assustador da violência doméstica é o facto de ser tão comum... é encarada como comum, normal - pela sociedade que mantém o lema de que entre marido e mulher não se mete a colher e pelas próprias vítimas que se submetem, achando que tem mesmo de ser assim e que com o tempo tudo melhorará.

**

pin gente disse...

temas e vivências assustadoras.
considero-me uma pessoa pacífica mas tenho a certeza que não conseguiria trabalhar numa área onde tivesse que lidar com este tipo de homens (sendo que, no que diz respeito à vilência homem/mulher, também existem mulheres que violentam). por vezes assisto a ridículas cenas conjugais e só isso já me faz ferver o sangue.


gostei muito da forma como divulgaste estes casos
um beijo
luísa

Violeta disse...

já lá vai o tempo em que a viloência doméstica era apenas associada aos mais pobres. Cada vez mais atinge as casses maia elevadas e os mais novos. Muitos jovens namorados agridem-se de uma forma assustadora..

argumentonio disse...

oportuno e tocante, Alex, todas as vozes são poucas para despertar consciências

de preferência, como o acerto de forma e conteúdo de quem sabe o que escreve e como escreve, com ritmo entre o documental e o poético, com o seu q.b. de direcção assitida mas deixando ao leitor encarar a realidade e descobrir pela reflexão a aprtir do que a história conta

os desfechos têm mesmo que mudar e oxalá as novas gerações já possam beneficiar de outro paradigma, em que se fala do assunto, em que as palavras são ditas, em que a verdade não se esconda nos muros do medo, da vergonha e da ignomínia

chega-lhes, pois, com histórias afiadas e certeiras, como sabes, pois importa denunciar para se conseguir eliminar as causas do sofrimento e enveredar por melhores caminhos

forte abraço solidário

Pekenina disse...

Se(i)nto-me (des)confortavel depois de histórias destas... Incomoda saber que são mais que contos, mais que palavras escritas. São testemunhos de realidades de muita gente...
Triste...

Beijo meigo

Maria, Simplesmente disse...

Não é necessário ir muito longe pois, por vezes, bem perto de nós, nos nossos prédios temos casos desses.
Penso que agora damos mais por eles por não serem tão escondidos, mas também (quantas vezes?) são mesmo mulheres que apoiam os homens que assim procedem.
Há algumas que até dizem que é por eles gostarem tanto delas, que é por ciume.
Depois há também o contrário, claro que a crueldade não está só dum lado.
Bom fim de semana
Maria

Carlopfler disse...

Verdadeiras histórias de terror... das quais tantas mulheres vivem dia após dia. um verdadeiro inferno tantas vezes omitido!
---------

Escondi-me por detrás da sombra,
Afastei-me dos tumultos e anseios,
E fugi, da permanente odisseia tenebrosa.

Assim que abandonara um amor,
Pelo qual, entregara a minha vida um dia,
E onde a infelicidade foi companheira assídua.

Finalmente, um dia despertei para mim mesma,
E mirei a minha imagem reflectida na alma
E nesse espelho, não reconheci o meu olhar vago e perdido.

Quis fugir enquanto houvesse tempo,
Peguei nos filhos e nos bens mais precisos
E libertei-me, do desamor do meu infiel marido.

Sem mais delongas, ou falsas ilusões
Libertei-me dum sofrimento demente
Sendo agora o meu reinício, e nunca o meu fim!

Maus-tratos, já não quero para mim
Só quero um emprego e um tecto,
Só quero um sorriso estampado, e um beijo dum filho!
---------

beijinhos :)*

Filoxera disse...

Não há só este tipo de violência...
:-(
Beijos.

Ana Rodrigues disse...

Isto é demasiado triste para poder ser verdade .

Ainda sou muito jovem , apenas tenho 16 anos , mas sou mulher , é óbvio , que isto não me é indeferente .

A mim , não haverá , homem nenhum no mundo que me toque para me bater . Nenhum .

Sei-me defender , mas mesmo que eu não saiba , não haverá homem que me cale , nem que me impessa de reagir .

Beijos , Ana Rodrigues .