quarta-feira, 22 de setembro de 2010

UM PORTÃO QUE SE FECHOU E QUE NÃO VOLTARÁ A ABRIR...


"Bom-dia, Dona Maria"
"Bom-dia, meu menino, vais para a escola cedo"
"Gosto de chegar cedo para comer o lanche e brincar um bocadinho"
"E a tua mãe, está boa? E a tua irmã?"
"Estão boas, obrigado, vou andando, até logo!"
"Até logo, meu menino, cuidado ao atravessares a estrada"
E a Dona Maria ficou ao portão da casa, onde estava quase sempre, acompanhando o vai e vem dos meninos e das meninas que passavam a pé para a escola que ainda ficava longe. Havia sempre bons-dias, copos de água para os mais sedentos e de vez em quando até bolinhos feitos num forno de lenha de onde soprava um aroma a alfazema.
O tempo passou, o caminho alcatroou e os meninos e as meninas continuavam a passar por ali a caminho da escola mas agora dentro dos autocarros ou nos carros dos pais. A Dona Maria a pouco e pouco foi escasseando ao portão, este passou de madeira a metal e a Dona Maria viu-se rodeada de cogumelos de cimento. Recolheu-se à lareira com uma manta de lã nos joelhos. Nunca mais nenhum menino lhe pediu um copo de água e o forno também deixou de crepitar. Só a filha e o filho, mais os netos de vez em quando por lá passavam.
O menino que entretanto cresceu até ser homem continuou a passar por ali mas com outras funções e outras prioridades. Recordava os bons-dias, os recados, os copos de água, os bolinhos e o cheiro a alfazema... "Um dia vou encostar o carro, sair e fazer uma visita embrulhada num abraço", pensou o menino que crescera até homem. Pensamento sempre adiado porque a vida é um corre-corre... mas um dia iria parar, cruzar o portão e levar uma lembrança à Dona Maria. Afinal ela era avó do Mário e do Rui, amigos de tantas viagens e aventuras.
O dia da visita seria amanhã, no máximo depois de amanhã... mas o menino que crescera até homem mas que guardara na memória pedaços de criança, chegou tarde ao portão... ficou com sede e parou para pedir um copo de água mas as almas têm mãos apenas para carregarem pedacinhos de memórias ... a Terra ficou mais pobre, o Céu ganhou uma estrela brilhante e o menino que cresceu (mesmo não querendo) até homem, ficou triste e chorou... de sede!  



É um portão! Estreito! Feito para pessoas, não para carros! 
Dá acesso a uma casa modesta, embora à sua volta tenham crescido cogumelos de cimento! Um portão que em tempos se abria todos os dias, mais recentemente só se abria às vezes e a partir de agora não mais voltará a abrir...


10 comentários:

Virgínia do Carmo disse...

Eis duas coisas em que o ser humano é muito bom: em adiar-se e em arrepender-se...

Obrigada por mais este excelente estímulo à reflexão!

Um abraço

Lídia Borges disse...

Um poema roubado ao quotidiano.

L.B.

Joana disse...

Muito bonito o texto. Deixou-me com a lágrima no canto do olho.

Beijinhos

Maria João disse...

Também vive na minha memória, uma D. Maria e um portão branco que nos franqueava a entrada para nos encher os bolsos com rebuçados depois de lhe pedirmos água.
Lembro-me que começou por acaso, num dia de calor em que tínhamos realmente sede e depois, essa era a desculpa para os rebuçados com que ela nos adoçava a alma.
Nunca mais vi essa senhora, estamos tão longe... no tempo e no espaço.
Hoje, aqui, voltei a relembrá-la através deste texto que me comoveu às lágrimas.
Ainda há pouco, alguém que agora também é estrela lá no alto a brilhar, dizia:
" Não deixem nada por dizer, nada por fazer.. "

...e a nós, por sermos surdos, cresce-nos este amargo de boca de vez em quando.

Um beijo

Lia disse...

(Já tinha saudades dos teus textos.)Não deixes para amanhã...


Um beijo cheio de sol Sofá*

hiltom disse...

Nesse longínquo tempo em que as crianças podiam ir à escola sózinhas,podiam brincar na rua sem o perigo de algum pedófilo as levar.Nesse tempo em que se era realmente criança, em que sabíamos brincar , em que, qualquer coisa se transformava um brinquedo nas mãos das crianças.
Tempos em que havia um mimo dos mais idosos para as crianças, em que elas os respeitavam.
É normal que as coisas boas fiquem na nossa lembrança e não as esqueçamos.Isso faz-nos reviver momentos felizes da nossa infância e juventude.
Por vezes vamos adiando certas acções que devíamos praticar, de dia para dia. Um dia poderá ser tarde demais!
Neste caso foi. A criança cresceu. A idosa morreu.
Um destino certo para todos nós, que ninguém pode escolher ou adiar.
Para os que ficam restam as saudades, as memórias.
Para nós, que as lemos, elas fazem-nos lembrar alguns momentos passados. Por momentos voltámos a ser crianças.
Comoveu-me esta história.

lino disse...

Triste mas lindíssimo texto.
Abraço

Ana disse...

Tão lindo...
Beijinhos

Marta disse...

Memórias de infância...quem não as tem??
Dos rebuçados, do pão doce... que saudades desses tempos....
Um texto lindo e comovente...
Beijos, abraços
Marta

Filoxera disse...

Lição a retirar:
Não esperar pelo amanhã. Devemos fazer acontecer.
Beijos.