quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Quando o amanhecer cheira a chuva miudinha...

Este tempo fresco pela manhã que nos bate na cara quando saímos para a rua recorda-me os idos da escola, mais propriamente quando andava no 8º ano. Havia uma quinta misteriosa por trás da escola, separada por um muro de pedra alto, com árvores centenárias a fazerem fronteira com o mundo exterior e - dizia-se - com muitas estátuas espalhadas no interior da quinta.
Os 14 anos são danados: a aventura falava mais alto, reunimos um grupinho e arranjámos maneira de saltar o muro numa manhã de quase chuva miudinha meio nublada. Sabíamos da fama do caseiro que teria uma espingarda e vários cães de dentes aguçados. Mas nos primeiros metros não vimos nem ouvimos nada. Alguém deu um grito abafado quando demos de caras com uma estátua... e depois outra, e outra!
Não fomos para o centro da quinta. Contornámos pelas veredas exteriores, em fila indiana, mudos de sons, só deixando sussurrar o restolhar das folhas secas e húmidas que forravam o chão de terra. Alguns minutos depois chegámos ao outro extremo da quinta e demos com uma pequena casa. A única porta estava fechada mas com um trinco precário, nada que fizesse o nosso líder - o Coelho - esmorecer... um empurrão e a porta abriu: entrámos à cautela e lá dentro havia móveis muito velhos rasgados pela humidade. Dentro dos móveis descobrimos livros, alguns com datas de 1800 e qualquer coisa. pareciam romances ou novelas, com palavras de um português antigo. As capas eram gravuras coloridas e havia muitos livros repetidos. Mas a maior parte deles estavam em muito mau estado, tal a humidade a que estiveram sujeitos com o passar das décadas. O Coelho distribuiu 2 ou 3 livros por cada um, os outros ficaram lá. 
Foi nessa altura que se ouviu alguém a vociferar acompanhado de ladrar de cães. Só tivemos tempo de agarrar nas nossas sacolas e correr... a bom correr! Acabámos por saltar o muro para fora noutro local, alguns ficaram todos arranhados mas a salvo. Escondemos os livros num buraco do muro até ao dia seguinte.
Ainda hoje guardo os livros que trouxe de lá. A quinta misteriosa está dividida em duas: a parte classificada, agora pertença da Câmara Municipal e aberta ao público, a outra parte urbanizada. No lugar da antiga casita dos livros está agora a imponente biblioteca municipal. Quanto aos aventureiros... o Coelho desapareceu há uns anos vítima dos maus caminhos por que optou; o Jaime trabalha no cinema da Câmara, o Nelo foi para os EUA, o Manel acho que também, o Formiga deve ter ido formigar para outro lado, o Canina nunca mais piscou os olhos por aqui (ele piscava os olhos algumas 3 vezes por segundo), o Fraústo - meu colega de carteira - é um alto quadro bancário, o Mário também trabalha num banco, o Diamantino (o meu grande amigo daqueles tempos) também deve andar por aí, e... havia outros mas a memória já lá não vai!
E isto tudo porque hoje o amanhecer cheirava a chuva miudinha... 

8 comentários:

Ana disse...

Olá!
Grande aventureiro que eras!;)
Quando somos mais novos fazemos cada coisa!;) Mas é muito bom quando nos lembramos e, quando uma coisa tão simples como a chuva, nos faz lembrar tempos passados!
Gostei muito da história, fiquei foi intrigada quanto aos livros que te calharam, quais foram?
Beijinhos

Sofá Amarelo disse...

Olá, Ana!

Os livros eram do tipo novelas, a literatura de cordel da altura que até o Camilo Castelo Branco escreveu, um tipo de leitura com muita procura na altura porque as mulheres passavam muito tempo em casa e não haviam grandes distracções.

chuva e nuvens disse...

Bem lindo este teu belo texto, Alex! Uma descrição bem sentida e que nos faz também viver as tuas aventuras...na Quinta da Fidalga, ou estou enganada? Uma Quinta encantada e encantadora, onde gosto de ir muitas vezes e onde o Outono tem um sabor especial!

Maria João disse...

Alexandre

O olfacto tem esse poder enorme, de desencadear um conjunto de sensações que nos projectam de imediato para um tempo e um lugar guardados na memória. Atrás dessa recordação vêm outras em catadupla e tantas vezes é através delas que percebemos e saboreamos o que já andámos "pra aqui chegar" ( como diz José Mário Branco.

Um beijinho

Fernando Santos (Chana) disse...

Caro amigo, belo texto que me fez recordar tempos passados...Espectacular....
Um abraço

AnaMar (pseudónimo) disse...

Memórias olfactivas que nos transportam para os tempos, revivendo-os. E trazem saudades. Oh se trazem.
Belo texto.

Bj

Bichodeconta disse...

O cheiro a terra molhada leva-nos invariávelmente á infancia. Pés descalços, caminhava sobre o gelo .Não havia frio que me parasse. Gosto tanto dos cheiros da natureza, e gosto tanto de ti. Beijinhos Alex.

Je Vois la Vie en Vert disse...

Recordações que marcam e resultam num post muito interessante !

Gostei de estar sentada no teu sofá e ouvir a tua história !

Se passares para a minha casa, empurra a porta e entra...

Beijinhos

Verdinha